segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Escritor - O Pesadelo Ep.2

                                             Capitulo 1 - O Pesadelo


Os homens fazem as suas próprias histórias, mas não as fazem como querem... a isso é chamado o pesadelo. O pesadelo é uma realidade só nossa a qual mais ninguém pode alcançar... apenas o nosso pior inimigo, aquele que não acredita nas nossas palavras mas apenas nos nossos pensamentos e conhece todos os nossos desejos e medos até mesmo os mais escuros e íntimos que insistimos permanentemente em acreditar que não existem... Nesse batalha somo nós contra nós mesmos, numa supremacia eterna onde não existe realmente um vencedor apenas nós...
Olhei em meu redor e tudo parecia ser mais real e nítido. Andy, a minha mulher estava ao volante com destino a Lancaster uma cidade calma e tranquila, onde passaríamos as férias que ela planeara com tanta dedicação, Andy convencia-me que seriam apenas umas férias longe de toda a rotina e confusão, mas ela era tão pura e bondosa que sempre que tentava simplesmente esconder ou mentir sobre algo por mais mínimo que fosse ela denunciava-se sempre, como se fosse impossível haver um único pingo de maldade naquele coração e eu bem no fundo sabia a razão desta viagem que ela tanto insistira. Eu era um escritor de sucesso, mas faz três anos que não conseguia escrever uma única palavra e por mais que tentasse ou tivesse ideias eu passava dias a apagar e a escrever frases vezes e vezes sem conta, talvez pelo stress ou mesmo pela pressão a que me submetia a mim mesmo por ser tão perfeccionista naquilo que faço, mas a verdade é que não conseguia passar nada para o papel e a frustração tomava controlo de mim, e eu bem que sabia no fundo que tudo isto era uma tentativa de talvez eu me inspirar e as palavras assim começarem a fluir para o papel, no entanto esse tipo de pressão retrai-me ainda mais e deixava-me com um sentimento desconfortável de ser incapaz de atingir as expectativas que os outros esperam de mim, apenas não gostava de estar sujeito a condições e obrigações para escrever e no final desiludir ao não atingir essas metas, mas sei que ela não o fazia por mal e a intenção era a melhor, por isso aceitei a viagem.
Ao entrarmos na cidade, era notável o vasto verde da natureza que cercava a cidade e o céu cinzento que a cobria. As ruas eram como eu as imaginara, cheias de pessoas locais a fazerem a sua rotina diária, um lugar onde todos se conhecem e fazem as suas vidas. Andy deixou-me num restaurante que como combinado era onde eu me encontraria com o proprietário da casa onde íamos passar as nossas férias, enquanto ela ia tratar de outros assuntos.
-Bem querido como combinado o Sr. Patrick estará à tua espera, só tens que receber as chaves. - Indicava-me ela de dentro do carro. -Vou tentar ser o mais breve... e Jack? Pareces um pouco cansado, foi apenas um pesadelo não penses mais nisso, já passou querido! - Dizia-me ela com a sua voz doce, ela simplesmente conhecia-me tão bem e sabia sempre como me acalmar, pois os pesadelos são frequentes para alguém como eu que trabalha com a imaginação, mas não tenho memória de alguma vez ter sentido um sonho tão real e perturbador como este.
Ao entrar no café empurro a porta que de seguida fez tocar um pequeno sino anunciando a minha presença, olho ao meu redor e vejo dois velhos numa mesa junto a uma jukebox que não parava de tocar sempre as mesma musica enquanto jogavam xadrez, ambos olham para mim em simultâneo mas rapidamente desviaram a sua atenção novamente para o tabuleiro.
Caminhei então até ao balcão onde se encontrava uma empregada jovem que combatia o tédio com um pequeno caderno de palavras-cruzadas.
-Boa tarde! Gostava de falar com o Sr. Jameson e talvez me pudesse ajudar? - Perguntei com alguma delicadeza pois o sitio não me inspirava grande confiança e estava a tentar manter-me longe das atenções.
-O Sr. Jameson de momento não esta e não sei quando irá voltar- Respondeu ela sem sequer levantar a cabeça enquanto completava as palavras-cruzadas
-O meu nome é Jack Aston, estava combinado encontrar-me agora, aqui com ele para me entregar as chaves da casa de férias - Disse eu confuso, mas antes que a resposta surgisse ela levantou-se muito rapidamente largando o caderno para cima do balcão e olhou-me com grande cara de espanto.
-Oh meu Deus, não posso querer! Jack Aston?! Jack Aston o escritor?! - Disse ela com a voz carregada de espanto e um brilho nos olhos como nunca vira antes e de seguida assumindo um enorme e rasgado sorriso. - Que posso fazer por si? Adoro as suas obras e sou uma grande fã sua! O que o traz por cá? - Perguntava ela cheia de emoção, nunca antes tinha conhecido assim nenhum desconhecido tão contente por me ver, era conhecido mas nunca ninguém me tratara antes com tanta emoção.
-Estou de férias com a minha esposa. Gostava apenas que me indicasse onde posso falar com o Sr. Jameson, se possível. - Respondi retribuindo um sorriso apesar de a situação estar a ser extremamente estranha, pois eu não conhecia esta pessoa e era completamente estranho ela ficar tão contente por me ver e conhecer-me tão bem.
-Ahh O Sr. Jameson! Após a jukebox nas escadas à direito ao chegar lá em cima tem um corredor mas é a única porta, basta bater. Ele diz-me para dizer isso sempre que alguém o procura mas você é uma honra recebe-lo na nossa cidade. - Dizia ela sem perder o sorriso dos lábios e o brilho nos olhos. Eu limitei-me a agradecer e seguir as instruções.
Enquanto caminhava podia sentir o olhar de um dos velhos da mesa de xadrez, ao chegar as escadas hesitei assim que coloquei o primeiro pé no degrau pois a escuridão preenchia o lugar, procurei um interruptor da luz e ao encontra-lo tentei liga-lo mas parecia não funcionar... até que:
-Não me digas que estas com medo do escuro, filho! - Diz o mesmo velho que me focava anteriormente enquanto me aproximava, sem retirar os olhos das peças do tabuleiro.
-Desculpe? - Perguntei-lhe confuso e um pouco perturbado pois não poda de deixar de sentir que tudo era muit estranho. Foi então que ele avança o bispo e mata a rainha do seu oponente e enquanto ele guardava a peça:
-O rei é fraco sem a sua rainha... não tem suporte e fica vulnerável, torna-se apenas mais uma peça no tabuleiro, um alvo fácil a abater... No entanto a rainha sem o seu rei simplesmente perde o jogo... e toda a razão de combater. - Dizia ele fazendo uma outra jogada e derrubando o rei. Eu estava sem palavras e a tentar perceber o que é que ele queria dizer com aquilo mas antes que pudesse colocar qualquer questão, ele manda-me uma moeda e pede-me para mudar a música da jukebox, ele levanta-se e dirige-se até ao bar e quando prossigo então para subir as escadas escuras sem outra alternativa ele diz:
-Tem cuidado com o escuro, filho... Pois ao mergulhar nele não existe distinção, somos apenas mais um pedaço perdido nela. - Eu olhei-o novamente enquanto ele bebia uma cerveja ao balcão, e sabendo antecipadamente que a minha pergunta seria escusada prossegui. Ao chegar ao topo das escadas o corredor escuro mostrava no fundo um pequeno fecho de luz por baixo da porta, caminhei até lá e bati à porta várias vezes mas ninguém abria, quando estava prestes a desistir e voltar lá baixo sinto uma brisa gelada bastante familiar, tocar-me trazendo ao de cima um arrepio que me percorreu o corpo todo, ao virar-me para trás:
-Sr. Aston... Aqui estão as chaves da sua casa e instruções como lá chegar. - Disse uma senhora com a pela pálida e rugosa com o braço esticado na minha direcção segurando umas chaves e um envolope, provocando-me um susto de morte que me fez encostar à porta, o corredor estava bastante escuro mas conseguia vê-la perfeitamente!
-Que... Quem é você? Era suposto encontrar-me com o Sr. Jameson para receber as chaves... - Disse eu gaguejando com dificuldade em controlar a respiração após o susto.
-Perdoe-me se o assustei, não foi na realidade a minha intenção... - Dizia ela sem se esforçar para conter o sorriso. - O Sr. Jameson infelizmente teve um imprevisto e encarregou-me a mim de lhe entregar as chaves pessoalmente. - Continuo-o ela e ainda com o braço esticado que segurava as chaves e o envolope.
Lentamente e tentando perceber tudo aquilo agarrei as chaves e o envolope, assim que as segurei ela solta novamente o sorriso e diz:
-Espero que se instalem confortavelmente na casa e permita-me saber se algo estiver errado. - Eu estava sem palavras e o olhar dela era tão profundo que conseguia sentir ela tocar-me... Foi então que ela continuo-o. - Em breve irei visita-los... Eu insisto! - Disse ela sem alterar a sua expressão...
Eu agradeci e dirigi-me até à saída, mas antes de sair ela voltou novamente a falar e disse:
-O lago é um sitio bastante especial, bastante inspirador. - Disse ela enquanto se afastava desaparecendo na escuridão... Sem olhar para mais lado nenhum apenas para a saída, ao sair do café vejo o que a Andy já me aguardava dentro do carro rapidamente entrei para dentro do carro sem dizer uma única palavra. Andy não se incomodou por estar assim ela sabia que eu era muitas das vezes assombrado pelos meus próprios pesadelos e demorava algum tempo em cair na realidade, por essa mesma razão olhei para as minhas mãos com atenção para ter a certeza se estava acordado ou isto era apenas outro pesadelo... Ao pensar naquela mulher e nas suas palavras sentia novamente uma sensação tão familiar mas isso era apenas o que mais me aterrorizava, o seu sorriso e olhar ainda me perturbava e era assustadoramente idêntico ao meu pesadelo...
Não demorou muito para Andy nos conduzir até ao destino! A casa ficava no centro e uma pequena ilha rodeado por um lago, o único acesso à casa era através de uma ponte. Admito que fiquei surpreendido mas satisfeito porque a zona ficava um pouco deslocada da cidade bem no seio da mãe natureza o ar era fresco e puro, ao aproximar-nos da ponte havia uma pequena placa que dizia "Casa do Lago".
Atravessamos a ponte e a casa era enorme e construída em madeira, o lugar era maravilhoso e transmitia mistério em cada canto o que o embelezava ainda mais.
A noite começava a cair e o lago ao nosso redor espelhava a sua beleza. Eu entrei primeiro pois a casa estava ás escuras, Andy desde sempre que tinha um grande pânico ao escuro, um pânico de forma a deixa-la petrificada por isso teria sempre que ser eu a tratar de situações como estas, assim que entrei procurei o interruptor com a mão e quando o encontrei ele não ligava a luz e ao que parecia teria que ligar o quadro da luz, então segui com uma lanterna à sua procura, a cada passo que dava o chão da casa rangia mas para além dos passos, a casa era preenchida com um silêncio tão profundo e uma enorme escuridão. Quando finalmente encontrei o quadro da luz, caminhei na sua direcção. Estava tanto escuro que conseguia ver através do fecho de luz da minha lanterna pequenos grãos de pó no ar.
Quando estava a meio do caminho do corredor para ligar a luz um enorme dor de cabeça consome-me, e derruba-me de joelhos no chão e deixei cair a lanterna que ao cair se desligou e rolou para longe do meu alcance, tentava-me levantar mas sentia como se tivesse um peso enorme nos ombro que eu não conseguia levanta de maneira alguma, eu não compreendia aquela dor mas bem no fundo sentia que tinha que conseguir ligar a luz, então caminhei e a cada passo a dor era cada vez mais insuportável e intensa quando finalmente estava perto e com o meu último esforço tentava ligar a luz ouço uma voz que diz "Não é um lago..." e a luz se liga e toda aquela pressão sobre mim desaparecera e sem forças caiu no chão... E ali fiquei confuso e incrédulo, esta não tinha sido uma dor de cabeça normal... Será que isto estava mesmo tudo a acontecer na realidade ou estaria eu a ficar louco e a minha imaginação distorcia a realidade que vivo? Quando ouço Andy entrar levanto-me não queria que ela visse a imagem de um homem à beira da sua sanidade mental estendido no chão, ela começou logo a arrumar as nossas coisas nos quartos eu aproveitei e sai lá para fora para pensar um pouco e também conhecer melhor o local. Algo não estava bem definitivamente comigo fosse qual fosse a razão de todos estes acontecimentos estranhos... Enquanto passeava não pude de deixar de reparar no lago que nos rodeava, o lago era negro e incomensuravelmente profundo para quem o olhasse da superfície, olhei para trás e contemplei a casa, aquela casa tinha uma história para contar escrita em cada recanto e estas águas guardavam os mistérios de uma outra vida neste lugar no seu fundo, quando olhava para a luz do interior da casa através de uma das janelas superiores pude ver Andy, ela era todo o meu mundo eu já tinha pensado contar-lhe sobre os acontecimentos estranhos mas o meu trabalho é protege-la e cuidar dela não preocupa-la com os problemas de um homem louco... e não adiantava falar com mais alguém, as pessoas têm alguma dificuldade em levar-me a sério por uma simples razão... eu sou um escritor e o meu trabalho é viver a minha imaginação, ela é a minha ferramenta de trabalho e a maioria das pessoas achava normal eu por vezes ouvir ou ver coisas fora do normal, porque por vezes torna-se difícil distinguir a realidade da fantasia, aliás até eu não acreditava nos acontecimentos que tinha acabado de viver, mas a Andy era diferente ela acreditava em mim, mesmo quando eu não acreditava.
 Ela da janela sorri-me e acena-me eu retribuo-lhe e ela faz-me sinal para subir e afasta-se da janela, eu caminho novamente para casa e quando começo a subir as escadas de casa ouço ela dizer:
-Querido estou cá em cima e tenho uma surpresa para ti! - Dizia ela com uma voz doce como mel.
Eu subi e ao entrar no quarto vi-a com um sorriso nos lábios ao lado de uma secretária com a minha máquina de escrever, aquela que eu utilizo quando quero escrever algo, naquele momento senti-me irritado e zangado porque ela sabia bem que odiava que ela fizesse esse tipo de coisas, eu sei que a sua intenção não é a de me deixar neste estado e ela estava com um sorriso tão radiante demonstrando apenas a amável intenção dela, mas para mim como escritor não conseguir atingir uma ligação entre a tinta e o papel é uma sensação de impotência é como sentir-me mudo e sem voz e quando ela fazia isto sentia-me mal, mas comigo mesmo.
-Andy porque é que a trouxeste?! - Perguntei com alguma severidade.
-Não gostaste? Pensei que talvez pudesses... - Respondia-me ela lamentando-se quando a interrompi.
-Sabes perfeitamente que não gosto dessa pressão e o que penso em relação a isso! Se eu a quisesse eu teria a trazido eu mesmo. - Dizia eu repreendendo-a pela ideia que eu já desconfiava.
Ela assume uma outra expressão oposta à anterior:
-Pronto Jack! Já percebi que não gostaste da ideia, mas não precisas de falar assim. Simplesmente julguei que talvez te pudesses inspirar neste lugar. - Respondia ela enquanto arrumava a secretária que ela preparara para mim.
Eu sai do quarto para não lhe dizer nada que a magoasse, pois eu odiava discutir com ela no entanto isto era um assunto que mexia um pouco comigo, lá fora a noite era bastante escura e eu sabia que ela jamais me seguiria até cá fora sem conhecer bem o local e com uma noite tão escura, caminhei até que encontrei um tronco de uma árvore velha de uma árvore, sentei-me e retirei de um cigarro e o coloquei na boca, eu na verdade não fumava nem nunca fumei, mas quando tinha problemas ou ficava com nervoso e preciso de estar sozinho coloco um cigarro na boca e não o acendo, apenas o deixo ali por uns instantes até me acalmar, porque quando o faço recordo o meu pai, ele era a pessoa mais sábia que alguma vez conheci e ele fumava muito dessa forma é como se lhe pedisse a sabedoria dele emprestada e o conforto dele por momentos. Quando estava mais calmo reparei que por cima de mim no tronco estava inscrito as letras "K+T" no centro de um coração gravado com talvez um faca, parece que este lugar tinha realmente uma história para contar... um amor para sempre vivo em cada canto deste lugar! Enquanto supunha cada um dos mistérios aqui guardados as luzes da casa se apagam de repente e a Andy estava lá, rapidamente ouço o grito dela a chamar pelo eu nome em socorro. Nunca houve uma razão especifica para este medo que ela tinha tão forte do escuro mas sempre a protegi pois sabia o quanto lhe afectava. Corri o mais rápido que pude até casa mas ao chegar a entrada tento abrir a porta mas ela estava inexplicavelmente trancada, porque quando sai assegurei-me que deixava a porta aberta para a Andy não ter que vir até a porta, devido à discussão, os gritos de desespero e choro da Andy fazem-me arrombar a porta mas momentos antes de destruir a porta da entrada ouço o barulho de algo a cair sobre a água e os gritos e choro com ele desapareceram, assim que abro a porta corro para o quarto e vejo o parapeito da varanda partido como se alguém tivesse sido empurrado contra ele e tivesse feito a fraca madeira ceder, corri até a zona quebrada e olhei para baixo a água ainda tinha espuma do embate e a água estava agitada, as águas eram escuras e densas mas conseguia ver ainda o pálido corpo de Andy a desaparecer na profundidade do lago. Sem qualquer hesitação puxei um grande trago de ar e mergulhei de cabeça...

Quando sonhamos não nos lembramos de nada, quando sonhamos só nos lembramos de estar em plena acção, não sabes como foste parar onde quer que estejas, só sabes uma realidade e é dependente dessa realidade que vais viver o teu sonho, o sonho é uma prisão do teu consciente onde só consegues fugir quando descobrires que tudo foi apenas um sonho...



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